VPP – Viagem pós pandemia – Ansiedade e Esperança
- Cristina Lima

- 26 de jun. de 2020
- 3 min de leitura
Quarentena – palavra que tem como origem “quarantina” – é um “período de 40 dias em que se mantinha um barco suspeito de transportar portadores de moléstias infecciosas em isolamento” 1660 – Veneza – Itália. Palavra esta que se restringe basicamente às situações de saúde. Mas todos nós temos nossas “quarentenas”, ou seja, um período de dias em que ficamos isolados, por algum motivo, em compasso de espera de alguma coisa que ainda vai acontecer.

Há também uma outra palavra que tem a mesma ideia de 40 dias: quaresma. A quaresma é um período pós carnaval em que nos mantemos ensimesmados, algumas vezes pratica-se o jejum (que é na verdade suportar um desconforto), uma espécie de renúncia. Em outras tradições também ocorrem períodos semelhantes: O Ramadã para os árabes, o Yom Kippur para os judeus etc. Diferentemente da expectativa da quarentena, há, na quaresma, uma esperança de que algo melhor está por vir. Em todas as situações em que nos encontramos impedidos de realizar algo que desejamos nos sentimos desconfortáveis, impacientes, com muita ansiedade.
Ansiar, em sentido figurado – quer dizer desejar, almejar – “ansiava muito por aquele momento”.

Na psicopatologia, a ansiedade é um estado afetivo alterado por conta de uma expectativa de alguma coisa. Podemos imaginar situações, prever perigos e, quase sempre, nos sentimos impotentes. Ora, é natural, portanto, que haja ansiedade em período de um confinamento durante o qual não sabemos como agir e que também não sabemos quando sairemos dele.
Na verdade, todos somos ansiosos. Mas existem graus de ansiedade.

Uma ansiedade normal, média, é ótima e necessária. Nos ajuda na conservação do momento difícil e nos faz agir para obter um bom resultado. No outro extremo há uma ansiedade impeditiva, que paralisa a pessoa. É a tal ansiedade “fora” do tempo. Não se está no presente e sim em um “fantasioso” futuro que, muitas vezes, não se realiza. E a sensação depois é que não foi capaz de “construir” o futuro que gostaria.
Bom. Será que podemos escolher entre uma ansiedade paralisante, que nos cria expectativas fantasiosas, e uma ansiedade produtiva que nos traga esperança?
Sim. Sem dúvida.

O primeiro passo é entender que a ansiedade é natural. Segundo é poder perceber que grande parte dessa “pilha” da ansiedade vem de fora de mim. Ou seja, algo me deixa mais ansiosa do que gostaria. Como tudo é para “ontem” temos que correr: prazos, cobranças, agenda, compromissos, etc. E se tudo isso não for feito, nos sentimos frustrados, inseguros, incapazes, tristes. E quando conseguimos nos sentimos exaustos e algumas vezes um sentimento de vazio. É preciso estar consciente para desligar a “pilha”. É escolher fazer o que realmente dá tempo. O que realmente é importante para a pessoa. E não para o mundo.

O terceiro passo, depois do “não” do segundo passo, é pausar. E pensar: como devo agir no tempo para alcançar o que quero no futuro. Aí as expectativas se transformam em esperança, ou seja, em confiança de que tudo vai dar certo e conseguirei atingir aquilo que realmente importa.

A viagem está no futuro. Em algum momento. E que bom que existe uma viagem no futuro. O que posso fazer agora para que essa viagem seja prazerosa? Normalmente temos um período mais ou menos definido, pois normalmente compra-se a passagem com antecedência. Daí temos a possibilidade de gerir o tempo da melhor maneira de acordo com as necessidades. Ou seja, solicitar as férias, providenciar documentação (pois pode haver problemas), traçar os roteiros, fazer cursos de conversação, estudar os lugares com antecedência etc. Sempre iniciando do que é mais “complicado” ao que é mais simples.
É essa confiança que garantirá grande parte do sucesso da viagem. Mas pode haver imprevistos? Sim. E é preciso lidar também com os imprevistos com a ansiedade, digamos, positiva: respirar, pausar e agir em relação ao que ainda está por vir.
Lembrar que a esperança torna o período de confinamento uma espécie de travessia. E a travessia faz parte da viagem. Boa travessia e boa viagem.
Texto: Dra. Telma Miranda (Psicanalista e Psicóloga a serviço do bem-estar emocional)
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